#00 - Prelúdio

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#00 - Prelúdio

Mensagem por Draken em Dom Maio 21 2017, 11:02

Mauville, 09:49

- Como você está Bartinho? E a sua ferida? Já sarou? Está se alimentando direito? De repouso?

Sua avó lhe entupia de perguntas no videofone, e ele tinha que apenas aceitar; ficara seis meses desacordado, e agora ligara para a velha somente para avisar que estava partindo para Dewford. O rosto dela era maldosamente castigado pelo cansaço e abraços do tempo, mal conseguia ver as bolinhas azuis que ela chamava de olhos por trás de todas aquelas rugas. Os cabelos grisalhos armados em um coque alto (como sempre) estavam bastante desgrenhados. O nariz pontudo e fino estava vermelho em alguns pontos, indicando que ela estivera chorando, ou espremendo espinhas.

- Tá tudo bem sim, vó. - O rapaz tentou tranquilizá-la. - Estou indo pra Dewford agora em busca do Saul. Aquele cara me deve umas respostas.

Os feixes de luz que perfuravam as paredes transparentes da janela faziam brilhar pequenos cristaizinhos de poeira, que vagavam despreocupados por aquela sala carregada de sentimentos conflitantes. Algumas pessoas desesperadas por perder seus entes queridos, e outras esperançosas de que seus amados fossem escapar do terrível beijo da morte. As paredes brancas pareciam se estender por milhas, e a impressão que Bart tinha era que, se ficasse mais tempo naquele lugar, provavelmente ficaria louco. Depois de muito escutar o choro da velha ama pelo fone, explicou para ela como ficou sabendo que seu mestre havia seguido para Dewford e que iria atrás dele de qualquer jeito. Suas palavras tinham uma entonação estranha. Estavam carregadas de desejo, mas de medo também. Talvez não quisesse escutar o que Saul tivesse a dizer. O Magnemite que flutuava a alguns metros ali o encarou com seu grande e redondo olho, com se tentasse transmitir uma sensação de segurança.

- Ele já saiu de Dewford há muito tempo, Bartinho. - Ela se rendeu e botou as cartas na mesa. - Meu filho me contactou pela última vez de Mountrock. Eu não sei o que ele está planejando, e pode ser que ele nem esteja mais lá. - A avó suspirou. - Mas você vai de qualquer jeito, não é?

- Você sabe que sim, vó. - Bart disse, com convicção.


- - -

Assim que pisou fora do hospital, a sensação da luz envolvendo sua pele lhe deu um toque de felicidade. Parecia que não via o sol há meses. Enfiou a mão em sua bolsa de couro e sacou um pedaço de papel rabiscado. Sua avó permitiu que ele continuasse em Hoenn buscando por seu mestre, mas teria de cumprir alguns requisitos: encontrar-se com um amigo da família que iria chegar na cidade em alguns dias, e pegar um pacote com ele. Tudo bem, ele poderia esperar. Fez um carinho no corpo metálico da criatura enquanto olhava em volta, buscando por algo que chamasse sua atenção. Viu um pokémon baixinho e pontudo usando um casaco amarelo com detalhes em laranja correndo na direção de uma loja. "Sorveteria" era o que estava escrito na placa. O que será que era uma sorveteria? Não se lembrava de ter visitado uma em Celestic e passara o resto da vida dentro de uma caverna, não fazia ideia do que poderia ser. Oz notou a curiosidade do humano ao seu lado e começou a fazer alguns movimentos na frente de Bart, chamando-o para entrar na loja. Por que não?

- Seja bem-vindo! Você deseja qual sabor de sorvete?

Uma bela moça de olhos castanhos e cabelos loiros sorriu para o rapaz. Estava no auge da beleza que seu corpo permitiria, e o uniforme rosa dava uma fofura especial para a jovem. A garganta do rapaz fechou e seu peito sentia falta de espaço para inflar-se. Pareceu difícil tragar o ar daquela cidade. Lembrou do que seu mestre falava sempre. "Quando encontrar uma situação adversa, respire fundo e mantenha-se ereto!" Bart suava de nervosismo, e começou a pensar consigo mesmo que ela era só uma garota, não precisava ficar nervoso. Mas ele precisava sair rápido dali. Olhou rapidamente pelo balcão e resolveu qual queria provar. Encarou a atendente mais uma vez e sua face enrubesceu.

- E-E-E-E-EU VOU Q-QUERER O DE CHOCOLATE, P-POR FAVOR!

Sua voz saiu um tanto alta e rachada. Que vergonha! A moça achou a situação cômica, mas escolheu não rir. Serviu uma bola do sorvete pro jovem rapaz e agradeceu quando ele a pagou. Bart saiu lentamente da loja com o corpo tão rígido quanto aço. O Magnemite emitia ruídos metálicos que lembravam uma gargalhada bem dada. Sentou-se em um banco num lugar menos movimentado ali perto e degustou a delícia gelada. O que era aquela textura? Aquele tom doce que pintava sua língua com as mais variadas sensações? Sentiu um prazer imenso comendo aquela refeiçãozinha. Nunca tinha refletido sobre, mas sentia falta do ambiente urbano. Se sentia um estranho depois de ter passado tanto tempo na Iron Island, isolado da civilização. Jogou o potinho de plástico em uma lixeira próxima e vagou pelas ruas a procura de um lugar onde pudesse aprender mais sobre o continente de Hoenn.

Passou por maus bocados naquela semana. Levou muito tempo até se acostumar com a enfermeira Joy e a hospedaria do Centro Pokémon. A donzela de cabelos rosados achou graça daquele marmanjo tímido e lhe ensinou como chegar na biblioteca do hospital de pokémon. Quando não estava dormindo ou comendo, Bart passava grande parte com a cara enfiada nos livros do recinto. Ingeria o conhecimento com voracidade. Aprendeu sobre as cidades daquela região, sobre ginásios e batalhas, um pouco sobre história e a mitologia local. Por mais que tivesse de obter respostas de seu mestre, também queria muito pesquisar sobre as ruínas e lendas de Hoenn. Ficaria um tempo por ali, e voltaria para Sinnoh quando a hora chegasse.

- - -

Numa tarde qualquer, um jovem de cabelos cor-de-ferrugem chegou no Centro Pokémon. Ele falava alto e muito rápido. Correu logo para o balcão e começou a perguntar por Bart Fitzgerald, um rapaz de cabelos castanhos e pele achocolatada, provavelmente acompanhado de um Magnemite. A enfermeira-atendente esboçou confusão em seus traços faciais, mas lembrou-se do carinha timidamente cômico que estivera hospedado ali na última semana. O Chimchar ao seu lado pulava loucamente, tão agitado quanto o rapaz. Joy levou ambos até a sala de leitura do recinto, mas exigiu que falassem baixo. Não haviam outros humanos ali, apenas um Bart deitado no chão com um livro sobre o rosto e um Magnemite próximo à uma tomada, dormindo.

- Oi cara, acorda aí. - O jovem chutou o rapaz deitado no chão levemente.

Bart puxou o livro calmamente para baixo, mostrando apenas os seus olhos de peixe morto, que encararam os cabelos vermelhos do rapaz e logo passaram pro chimpanzé de fogo que pulava inquietamente ao redor do pokémon elétrico de ferro, tentando acordá-lo.

- Tch. - Fez um barulho de desprezo com a boca e virou para o lado.

- LEVANTA LOGO, BART! - O rapaz se abaixou e puxou o sujeito deitado pela gola da camisa de linho. - Tenho um recado da vovó Lizzy pra você!

O nome dele era Mark Redbone. Era um moleque chato extremamente proativo que fez parte da infância de Bart. Ambos atenderam a pré-escola juntos e o rapaz achava um tanto incômodo lidar com ele. Levantou-se vagarosamente, e isso só deixou Mark ainda mais nervoso. Depois de alguma gritaria e vários pedidos de silêncio da enfermeira Joy, colocaram algum papo em dia. Contaram sobre o que fizeram nos últimos anos e coisas do tipo. De certa forma, a vida também não fora nada fácil com o ruivo.

- Comecei minha jornada finalmente. Achei que o pai fosse me obrigar a cuidar da loja, mas finalmente consegui sair.

Suspirou. O sr. Redbone era uma pessoa realmente chata e rígida. Bart não achava que ele realmente havia deixado Mark sair em uma jornada, mas o jovem parecia feliz, então resolveu não questionar.  

- Enfim, vim a pedido do professor Rowan. Você vai começar uma jornada também, certo?

O ruivo tirou três pokébolas do bolso e soltou três monstrinhos: um chimpanzé, um pinguim e uma tartaruga. Tirou um dispositivo cinza com alguns detalhes verdes da sua mochila.

- Isso é uma pokédex. Uma enciclopédia pokémon. O velho Rowan pediu que eu lhe entregasse. - Bart pegou o item e analisou-o com cuidado. Descobriria como o aparato tecnológico funcionava em outro momento. - E você precisa de um parceiro também. - Mark apontou para os três pokémon que brincavam entre si.

- Então Mark, eu já escolhi um.

O Magnemite flutuou na direção de Bart e soltou pequenas faíscas azuis. Uma das lâmpadas da sala estourou, e todos riram da empolgação do pokémon imã. Mark lhe entregou também algumas pokébolas e outros itens que o rapaz de cabelos escuros não sabia muito bem o que eram, e se despediu. Voltaria para Sinnoh, e talvez eles se encontrassem em algum momento de novo. Nunca se sabe, o mundo é grande. Virou-se para seu amigo de ferro e deu um sorriso desengonçado.

- Amanhã nós vamos conhecer o mundo, Oz.

O pokémon soltou um chiado de alegria.

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Re: #00 - Prelúdio

Mensagem por Ran em Seg Maio 22 2017, 15:36

Inicial entregue! Boa sorte em sua jornada!
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