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Mensagem por Xavante em 02.04.18 2:45


O focinho negro roçou curioso o ouvido do rapaz, a umidade arrancando um arrepio de seu corpo distraído. Voltou o olhar, percebendo que o pequeno Houndour rondava-o um tanto inquieto, ansioso. Gaspar retirou o cigarro da boca com uma mão, enquanto com a outra acariciou a extensão alaranjada do focinho do pokémon, tentando transpassar tranquilidade. Deslizou a mão delicadamente sobre a estrutura óssea no topo da crânio, até encaixar os dedos numa massagem entre as orelhas. Houndour encolheu de prazer sob o toque de Gaspar, que sorriu aos lampejos de carência que ainda dominavam o seu pequeno parceiro. De fato, o bicho mal havia completado um ano, embora já tivesse um corpo totalmente desenvolvido e bastante robusto. O rapaz moreno tinha orgulho do vigor do companheiro.

Vagarosamente, inclinou a cabeça para cima, liberando num sopro em direção ao céu o fumo acumulado em seu pulmão. Num movimento displicente reposicionou o cigarro na boca. Gaspar pensava. Raciocinava. Tateava cálculos com coeficientes indecifráveis, traçava geometrias absurdas com sentimentos vastos. Mantinha econômico os movimentos do corpo para melhor investir-se no caos em sua mente. O rapaz titubeava, na realidade, diante de um futuro inesperado que ameaçava querer brotar de si.

Olhou para os aparelhos eletrônicos espalhados no gramado ao seu lado, experimentando uma certa angústia. Pokedex, pokébolas, até uma potion. Iniciar uma carreira como treinador pokémon, era uma decisão certa para si? Não importava o ângulo por que olhava, a ideia soava sempre como alguma coisa muito distante, que não pertencia a sua realidade. Nunca teve muito interesse por essa vida de "aventuras" quando criança, sabendo desde cedo que se tratava de uma vida mais facilmente acessível para famílias abastadas; diante disso, preferiu se comprazer com as paixões que descobria ao seu redor, na chácara, nos amores das cidades do entorno, nas florestas e rios de Sinnoh. Agora, aos 21, se perguntava se não era consideravelmente velho para aquilo. Muito daquela realidade era alimentada por fetiches infantis. Aquele era um terreno desconhecido, sem amparo, e que poderia levar à sua derrocada.

E, no entanto, apesar de tudo que sua consciência apontava, pela primeira vez na vida Gaspar se sentia compelido àquilo. "Do nada", diria. E com força. Frente às tragédias recentes que vivera, a vida solta de um Treinador, descolada de solo fixo, de pessoas fixas, da obrigação de ter que reconstruir sua vida do zero - tudo compunha a incoerência a que ele mais se agarrava. Viver como um ermitão, mas com o conveniente de poder acumular dinheiro durante a jornada. O custo era alto, e o retorno impreciso.

Gaspar envolveu uma das pokébolas na mão direita.

- Houndour... - chamou.
*

Slateport era uma cidade agonizantemente quente e abafada. Gaspar gotejava de suor enquanto aguardava ser chamado ao escritório do homem a quem a carta de sua mãe o tinha endereçado. No recinto pequeno, abarrotado com toda variedade de itens, usados e novos, de tecidos a máquinas, uma moça jovem, responsável pelas vendas, o observava por trás do balcão num silêncio constrangedor.

Súbito, a porta da frente se escancara, e por ela entre um homem jovem, a pele branca bronzeada por uma evidente constância diária sob o sol. As íris muito escuras, quase indistinguíveis da pupila, eram fuzis contrastando com os cabelos loiros acobreados. Gaspar sentiu logo uma vertigem com a presença e a beleza estrondosa do rapaz, mas foi deliberadamente ignorado:

- Einar, espera - disse a garota ao balcão, interrompendo a impulsão dos passos do loiro. - Papai está numa reunião importante.

Ele estacou, o olhar determinado engolido por outro, aturdido e confuso. Agora que estava parado, Gaspar pôde ver que ele transpirava e ofegava descompassadamente. Mais calmo, o homem loiro pareceu reparar ao seu redor pela primeira vez. Fitou o rapaz moreno observando seus movimentos e enrubesceu por um segundo.

- Ah, desculpe - sussurrou, virando-se novamente para a moça ao balcão. Gaspar não entendeu a quem ele tinha se desculpado. - Meu problema pode esperar...

- Ultimamente você está sempre andando assim, apressado, estressado. Tem que rever isso - os lábios da menina terminaram a fala num esgar de reprimenda. Ele suspirou, parecendo por fim se recompor inteiramente do constrangimento. - Me conta - reiniciou ela, rápida, interessada, quase lasciva - como está indo a nova vida?

- Para além desse estresse? Olha só. - Tirou um dispositivo eletrônico do bolso, pequeno, semelhante a um celular, mas redobrável. Diante da cena na tela do aparelho, a garota arregalou os olhos, faiscante.

- Não creio - exclamou, pontuando sílaba por sílaba. - Você encontrou uma Lugia? Mano, deve ter sido surreal.

- Com aquela força, aquele corpo esguio tracejando os céus... eu diria que foi quase obsceno. Você ia adorar, mana. E além do mais... - meteu a mão no bolso novamente, mas agora com uma espécie de orgulho comprometendo seus gestos. Balançou um bolo de dinheiro no rosto da garota. - Demorou, mas enfim engrenei a ganhar dinheiro seguro. Vim quitar minhas pendências com o velho. É hora. Chega de humilhação.

A face da moça se recolheu em dúvidas, na defensiva. Ia responder, mas foi interrompida pela abertura da porta às suas costas. De outro aposento, instalado atrás do balcão da loja, saiu um homem idoso em silêncio, sério, carrancudo. Não trocou um olhar sequer com nenhum dos três jovens parados ali, e sumiu pela porta da frente. Logo em seguida, do cômodo ao fundo saiu outro homem, também velho, mas nada abalado. Ele só estacou quando viu o homem loiro. Os dois se fitaram, intensos, as cabeças levantadas, quase desafiando-se.

- Papai - cortou a menina, em tentativa de amenizar a tensão. - Um rapaz veio falar com o senhor, de Sinnoh, disse que é importante. Gaspar...

- Ya'wara - emendou Gaspar, costurando na ausência de memória dela.

A feição do homem mais velho reagiu num solavanco ao som do sobrenome, denunciando seu reconhecimento. Era só disso que Gaspar precisava. Com um movimento de cabeça, o homem convidou o rapaz a adentrar o escritório. Sem se delongar demais, Gaspar apresentou a carta de sua mãe e contou o contexto de sua situação atual. Ele ouviu com atenção, e então suspirou, pensativo. Depois se pôs a falar. Poderia ajudar o garoto, principalmente com algumas alternativas de trabalho em Slateport, mas levava muito a sério sua reputação na cidade e precisava saber como ele lidaria com o comprometimento... A um dado momento do sermão do homem, Gaspar passou a ouvir as palavras apenas superficialmente, e sua atenção se fixou num pequeno dispositivo na prateleira ao seu lado. Já tinha visto aquilo em algum lugar... É o mesmo item usado por Einar, lembrou. É uma pokédex, pensou, num assomo de reconhecimento.

- Ei - o tom áspero do homem quebrou a hipnose. - Entendeu?

- Sim - respondeu. - Mas e aquilo ali - apontou a pokédex - funciona?
*

- Houndour... - chamou. - Me pergunto se você está disposto a tentar esse absurdo comigo, sabe, como meu pokémon inicial?

Gaspar queria tudo em seu devido lugar. Não ia colocar seu companheiro numa pokébola e usá-lo em batalhas sem sua condescendência. Não o tinha criado para esse fim, para início de conversa. Portanto, cabia a ele decidir. O pokémon cão não falava, mas o rapaz sabia que ele tinha pleno entendimento do que estava em questão. Tanto é que, sem se demorar, o pequeno Houndour ergueu-se nas patas traseiras a fim de fazer suas lambidas alcançarem o nariz de humano. O moreno riu, feliz, abraçando o corpo do animal para escapar da sua língua. Sabia que aquilo era mais do que uma aceitação: era um pedido. Gaspar inclinou a cabeça e beijou o topo da testa do Houndour; simultaneamente, encostou uma pokébola em seu torso. Num lampejo vermelho, o pokémon foi absorvido. A pokébola piscou uma vez e se estabilizou.

No fundo do quintal da pequena hospedagem no subúrbio de Slateport, acocorado no tronco de uma árvore, Gaspar continuou a pitar seu palheiro.


- - - - - -

Spoiler:
PS: Na biografia da minha ficha, no último parágrafo, ao invés de Slateport, eu coloquei Oldale. Se puderem consertar...
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Re: [0] Coeficiente de transformação

Mensagem por Artie em 04.04.18 15:13

Inicial entregue e perfil atualizado!

Fique a vontade para postar sua primeira rota em Slateport ou proximidades! Boa jornada!

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